O SERMÃO DE BENARES. REFLEXÕES SOBRE A GÉNESE DO BUDISMO[1]
"Não
é possível viver sem nos implicarmos. «O mundo está em chamas», dizem há quase
três mil anos os textos budistas, «o fogo da ignorância, o fogo da inveja, o
fogo da violência, devoram‑no.» […] Um mundo em que guerras mais
radicalmente destruidoras do que nunca se instalam no meio de uma paz que não é
paz, […] de um mundo onde os jornais publicam lado a lado anúncios de
restaurantes gastronómicos e reportagens sobre a fome no mundo, onde cada
casaco de peles é um passo para a extinção de uma espécie viva, onde a nossa
sede de velocidade agrava dia a dia a poluição de um mundo de que dependemos
para viver. […] É inútil dizer‑lhes [aos jovens] que os mais hábeis, ou
talvez os mais sábios, conseguem vencer o caos que nos rodeia e até dele
extrair parcelas de felicidade e de êxito pessoal, quando aquilo que os faz
morrer não é a sua própria angústia, mas a dos outros." Marguerite
Yourcenar, Le Temps ce grand sculpteur
I
O
Sermão de Benares constitui
inquestionavelmente o principal ponto de referência doutrinal do Budismo e das
suas diferentes escolas. As condições da sua prelecção, assim como todos os
aspectos fundamentais da vida do seu orador, estão envoltos num manto de
mistério onde se cruza o mito e a história.
Segundo
a tradição budista, o Sermão de Benares
representa o primeiro sermão pronunciado por aquele que é designado na cultura
ocidental como sendo o Buda. No entanto, em termos estritos, o termo «Buda» não
é propriamente um nome mas antes a designação de um estado de libertação e de
iluminação. Na verdade, a palavra «Buda» significa literalmente "o
desperto", entendendo‑se este «despertar» como sendo a apreensão da
realidade que nos constitui assim como a libertação das condições que geram o
sofrimento em todos os seres sensíveis.
Em
termos históricos, aquele que ensinou a via (dharma) do Budismo nasceu provavelmente em meados do século VI aC,
na região de Lumbini[2] - situada
actualmente no Nepal junto à fronteira com a Índia - onde vivia o povo dos
Shakya, razão que explica o facto de múltiplas vezes o Buda histórico ser
frequentemente nomeado como «Shakyamuni», isto é, o sábio dos Shakyas[3].
O seu verdadeiro nome era Siddartha Gautama - Siddhatta Gotama, em Páli, a
língua sagrada budista - e era filho do Rajá daquele clã.
Reza
a lenda[4]
que, sete dias após o seu nascimento, a mãe de Siddharta (Mayadevi) faleceu e o
jovem príncipe foi educado pelo pai (Suddhodana) num ambiente de luxos e
prazeres. "O rei seu pai, receando que ele se sentisse atraído pelo
caminho da libertação, fê‑lo rodear pelos prazeres dos cinco
sentidos."[5] Aos
dezasseis anos, Siddartha casa com uma bela princesa (Yashodhara), da qual irá
terá, treze anos mais tarde, um filho (Rahula). Nessa altura, diz‑nos o
mito, Siddartha confronta‑se, pela primeira vez, com a visão da velhice,
da doença e da morte. "Pensando que não estava ainda liberto da velhice,
da doença e da morte, ficou mais triste ainda. Imediatamente fez o carro dar
meia volta para regressar."[6]
Tal visão que lhe tinha sido ocultada pelo pai levá‑lo‑á, num
primeiro momento, a abandonar o seu palácio e assumir uma vida de grande
ascese, como forma de descobrir as raízes do sofrimento. Só que estas práticas
ascéticas não lhe trouxeram qualquer libertação, antes o conduziram
praticamente às portas da morte. O mito diz‑nos que Siddhartha decidiu
então abandonar a ascese e sentar‑se no sopé de uma figueira - na região
conhecida como Uruvela, hoje Bodh‑Gaya - com a firme deliberação de nunca
mais se levantar até encontrar a iluminação. "Então sentou‑se de
pernas cruzadas numa mesma postura durante sete dias aos pés da árvore do
despertar"[7]. Conta‑se
que foi tentado por demónios mas que a sua determinação se manteve sempre
firme. Ao atingir o estado de Buda, é‑nos dito que não só intuiu a causa
e a raiz do sofrimento, como apreendeu a unidade fundamental de todos os seres
vivos, de como todos eles eram arrastados na eterna roda de nascimento, do
sofrimento e da morte (Samsara).
Manteve-se em silêncio durante algum tempo, pois achou que a sua doutrina, o
seu «dharma», era difícil de perceber, dado que ia contra todos os nossos
hábitos mentais mais enraizados. "Este dharma que eu realizei é, na
verdade, [....] difícil de apreender, difícil de compreender [...] Só com
dificuldade eu próprio o compreendi."[8]
Mas movido pela compaixão decidiu ensiná-lo, sendo o primeiro acto público, o
sermão que pronunciou aos seus cinco primeiros discípulos em Sarnath, perto da
cidade de Benares (Varanasi). Esta prelecção que, segundo os budistas, põe em
movimento a roda da Lei (dharma),
constituindo o ponto de partida da sua predicação, é conhecido usualmente como
o Sermão de Benares.
II
Neste
sermão, Siddharta Gautama estabelece os quatro princípios essenciais da sua
doutrina, também conhecidos na terminologia budista como as quatro «Nobres
Verdades»[9].
São estas, a nosso ver, as passagens centrais deste texto tradicional que
procura reconstituir o ensinamento oral do Buda Shakyamuni, pois Siddharta
nunca escreveu nada na sua vida:
“Existem dois extremos, ó monges, que aqueles
que renunciaram ao mundo, não devem perseguir: o apego indulgente aos prazeres
sensuais; isto é vil, comum, vulgar, sem santidade, votado à infelicidade; e,
por outro lado, o apego ao auto‑tormento; isto é penoso, sem santidade e
votado à infelicidade. Ó monges, igualmente distante destes dois extremos
encontra‑se o caminho do meio, perfeitamente compreendido pelo Tathagata[10],
que leva a que se possa ver e saber e que conduz à paz, à sabedoria, à iluminação
e à extinção.[11] [...].
Eis aqui, ó monges, a nobre verdade do
sofrimento[12]: o nascimento é sofrimento, a velhice é
sofrimento, a doença é sofrimento, a morte é sofrimento; a dor, o lamento, a
angústia, o desespero são sofrimento; a união com aqueles de quem não se gosta
é sofrimento, a separação daqueles de quem se gosta é sofrimento; não obter o
que se deseja é sofrimento; por fim, os cinco agregados de apego[13]
são sofrimento.
Eis aqui ainda, na verdade, ó monges, a nobre
verdade da origem do sofrimento: é a sede[14]
que conduz ao renascer, acompanhada do apego aos prazeres que se gozam aqui e
ali, quer dizer, a sede do desejo, a sede da existência, a sede da
inexistência.
Eis aqui ainda, ó monges, a nobre verdade da
extinção do sofrimento: é a cessação e o desapego completo desta mesma sede, o
seu abandono, a sua rejeição, o facto de dela se libertar, de não mais a ela se
apegar.
Eis ainda aqui, na verdade, ó monges, a nobre
verdade do caminho que conduz à extinção do sofrimento: é a nobre via de oito
braços, a saber, a visão perfeita, a resolução perfeita, a linguagem perfeita,
a acção perfeita, a vivência perfeita, o esforço perfeito, o recolhimento
perfeito, a concentração perfeita.”[15]
O
primeiro princípio da doutrina do Buda Shakyamuni consiste na afirmação do
sofrimento como traço incontornável da nossa experiência do mundo. Que sentido
tem esta afirmação sabendo nós que a vida oscila permanentemente entre, por um
lado, estados de prazer e de alegria e, por outro, situações de pesar e de
aflição? Como reconhece o Buda, se não existissem momentos de prazer
dificilmente se compreenderia o valor que os seres humanos em geral atribuem ao
ego e à experiência física sensorial. "Se o corpo fosse
exclusivamente doloroso, apenas relacionado com o sofrimento e não também com o
prazer, então os seres não ansiariam tanto pela sua existência física."[16]
É evidente que o termo português "sofrimento" cobre mal o significado
presente na palavra escolhida pelo fundador do Budismo, a saber, "dukhka".
Em sentido estrito, deveríamos traduzir este termo por "insatisfação
difusa"[17], na medida
em que mais do que uma dor permanente o que está em causa é a insatisfação que
percorre todos os actos da nossa vida, mesmo aqueles que consideramos
habitualmente bem sucedidos e fonte de prazer. Não só esses momentos são
escassos como, acima de tudo, estão condenados a desaparecer com a lei do
tempo. A percepção da sua efemeridade produz normalmente sentimentos de
angústia e de ansiedade que suscitam um maior apego desesperado em relação
àquilo que nós próprios sabemos estar condenado.
O
Sermão de Benares mostra‑nos com clareza quais os diferentes
níveis da nossa vida nos quais é possível surpreender uma "insatisfação"
insustentável e permanente. São cinco os níveis considerados: 1. os momentos
cruciais da história de uma vida, pois tanto o nascimento como a velhice
implicam não só a presença da dor e do sofrimento como a percepção de que o seu
último momento será sempre a morte; 2. O segundo nível prende-se com os
sentimentos associados com a perda de algo que estimamos, desde a lamentação ao
desespero em face do que já não se é, do que já não se tem; 3. O terceiro nível
refere‑se à nossa dificuldade em estarmos junto de quem não gostamos e de
estarmos separados de quem amamos, uma forma de traduzir a tensão constante com
o outro; 4. O quarto nível diz respeito à insatisfação permanente derivada da
"espiral do desejo"[18]
que comanda as nossas vidas; 5. Finalmente, o Buda refere o
"sofrimento" associado ao que designa, numa terminologia obscura,
como os "agregados do apego", mas que, não são mais do que os
diferentes elementos corporais e mentais associados à constituição sempre
dolorosa e precária da nossa identidade pessoal.
Ora,
como é evidente, em todos estes elementos surpreende‑se a nossa
incapacidade visceral em saber viver com a impermanência constitutiva de tudo o
que é, em si, condicionado e sujeito à lei do tempo. Numa visão mais
contemporânea do problema da "insatisfação difusa", poderíamos
descrever a intuição de Buda como sendo a
percepção de que a vida implica uma constante humilhação do nosso
narcisismo mais recôndito, do nosso amor próprio mais oculto, pois mesmo tudo o
que hipostasiamos como perfeito se encontra condenado à precariedade e ao
desvanecimento integral[19].
É, pois, neste contexto que devemos compreender a afirmação de Buda Shakyamuni
segundo a qual a sua doutrina deve ser sobretudo pensada como uma terapia
libertadora da insatisfação difusa que percorre as nossas acções. “Assim como o
vasto mar está impregnado de um único sabor, o do sal, ó monges, também esta
doutrina e esta disciplina estão impregnadas de um único sabor: o da
Libertação"[20].
A
caracterização da vida como sofrimento, enquanto humilhação do nosso
narcisismo, representa, a par da impermanência[21]
e da inexistência do ego[22],
um dos três "sinais da existência"[23].
São noções articuladas entre si, na medida em que a percepção de que nada no
mundo é permanente tem como corolário lógico não só a visão do nossos estados
corporais e mentais como finitos e precários, como suscita a nossa angústia em
face da inexistência de um ego a que nos poderíamos apegar eternamente.
A ideia de que uma entidade condicionada -, como são todos os objectos deste
mundo - seja dotada de uma identidade substancial, revelada num núcleo residual
e a‑temporal, mostra‑se, para Shakyamuni, como sendo uma ideia
profundamente errada. Quando aprofundamos a natureza de cada ser, qualquer que
ele seja, os contornos e os limites que estabelecemos entre ele e os outros
desvanecem‑se progressivamente. Não só nada é absolutamente autónomo como
as diferenças entre os diversos seres esvaem‑se à medida que aprofundamos
a sua natureza. Se existe visão especulativa da existência por parte do Buda,
ela consiste na reiteração da interdependência infinita entre tudo o que
existe. A ideia de limite e de identidade absoluta é apenas o resultado do
desejo ansioso da nossa mente de encontrar pontos de segurança e de
estabilidade, de não querermos ser arrastados pelo fluxo da vida. “Tal como a
abelha colhe a essência de uma flor e voa sem destruir a sua beleza e perfume,
assim passa o sábio por esta vida.”[24]
O
mesmo se pode dizer da visão usual que temos do nosso ego. A ideia de
que a actividade mental, de que a mente, no seu fluxo, tem um «eu substancial»
que a possui é igualmente, segundo o Budismo, uma ideia a afastar. Da mesma
forma que quando olhamos o voo dos pássaros podemos projectar uma linha
imaginária do seu percurso, do mesmo modo a actividade do nosso corpo, do nosso
sentir, das nossas percepções, dos nossos hábitos mentais, da nossa consciência
– os cinco elementos condicionados da nossa existência, os cinco agregados da
identidade pessoal referidos – parecem
ter um núcleo substancial a que chamamos «eu»[25].
Tal núcleo é apenas uma projecção imaginária resultante de não aceitarmos
impermanência do nosso próprio ser. Esta questão, habitualmente designada como
o princípio budista da "inexistência do ego" (Anatman) deve ser vista com muito cuidado, pois estamos em
face de uma das noções mais subtis da doutrina do Buda. Este último não nega
pura e simplesmente a existência condicionada de uma entidade a que
convencionalmente chamamos "eu" e que, não só nos é útil na nossa
vida diária, como a sua pura e simples extinção poderia conduzir‑nos à
beira da loucura e da psicose[26].
O que nega é a existência neste mundo de uma substância eterna que se
subtraísse à lei global da
impermanência. A nosso ver, o mesmo princípio se aplica a qualquer entidade
deste mundo[27]. Se
aprofundarmos a natureza de qualquer ser, por exemplo, a mesa onde escrevo,
veremos que ela não difere essencialmente de todos os outros objectos
circundantes. A mesa tem uma existência condicionada e relativa que
nunca existe para lá do tempo e do fluxo contínuo da existência. O mesmo
acontece àquilo que chamamos eu ou ego. Este último não é mais do
que a conjugação provisória de um conjunto de fenómenos psíquicos entre os quais
sobressai a memória e a capacidade de contrair hábitos. São eles que determinam
a nossa identidade pessoal, mas não são eles que determinam a nossa natureza
mais própria. O Budismo faz‑nos compreender que em torno do problema da
identidade pessoal se conjugam duas questões que, no limite, são dissociáveis:
uma que se prende com a nossa personalidade e carácter, com o modo como as
experiências que tivemos foram sedimentadas e cristalizadas, a que poderemos
chamar «memória residual» derivada da acção física ou mental (Karma)[28].
A enigmática noção oriental de Karma - literalmente «acção» - traduz, a
nosso ver, o facto unanimemente reconhecido de que todo o nosso agir não só
marca as nossas memórias como determina as nossas expectativas e ansiedades,
moldando, deste modo, a nossa personalidade. “Da mente provêm todas as coisas.
Tudo nasce da mente, é formado pela mente. Se um homem fala ou age com uma
mente impura, o sofrimento acompanha‑o, tal como a roda de um carro segue
o animal que o puxa.”[29]
A segunda questão em torno da pessoa prende‑se com a nossa natureza
essencial, natureza só apreendida no momento em que realizamos em nós a
interdependência infinita que nos constitui visceralmente. Em geral,
confundimos as duas questões da nossa identidade pessoal, nomeadamente na
redução da natureza essencial que nos constitui à nossa personalidade, redução
que acarreta a hipostasiação do ego como presumível substância infinita
e eterna.
Mas
o Sermão de Benares não é a apenas a caracterização da experiência do
mundo como sofrimento e "insatisfação difusa". O Buda Shakyamuni
debruça‑se, em seguida, sobre a origem deste sentimento e a resposta
encontrada é caracterizada através de uma metáfora: "a sede". Em
termos psicológicos, esta "sede" traduz um estado de ânsia que nunca
encontra sossego e que se reflecte, segundo o Buda, em três dimensões: no
desejo puro e simples e, em particular, na «espiral do desejo» atrás referida;
na sede de existência e na sede da inexistência. A caracterização do desejo
como sendo uma das raízes do nosso sofrimento deve ser observada com muita
atenção pois essa palavra subsume, nas línguas ocidentais, um vasto campo de
significações nem sempre concordantes. Alexandra David‑Néel, na sua
célebre apresentação da doutrina budista[30],
mostra‑nos os diferentes sentidos positivos e negativos do desejo na
visão budista do mundo. "O desejo e a procura da sua satisfação são
legítimos como manifestações normais e naturais da individualidade. Lançar‑lhe
o anátema, como se fez na maioria das religiões , é inútil e ilógico [...]. O
Buda foi um inimigo irreconciliável do ascetismo, num país onde este dominava a
consciência religiosa com uma força da qual, as mais violentas manifestações da
fé cristã, aquelas que povoaram de anacoretas a areia de Tebaída, não podem dar
senão uma pálida ideia. Não é, pois, um preceito de sacrifício que nós ouvimos
sair dos seus lábios. [O que o Buda critica são] os desejos que nos amarram,
que nos arrastam numa corrida eterna de decepções dolorosas"[31].
O desejo como origem do sofrimento deriva tanto da avidez como do apego em face
do mundo, mostrando‑nos a situação trágica de uma mente hipnotizada, não
desperta, que pensa tudo suster e controlar. Mas não é só a "sede da
existência" que é visada pelo Buda Shakyamuni, na medida em que a
"sede da inexistência", enquanto desejo de auto‑anulação, cuja
forma mais perversa consiste na aversão a si mesmo e na negação do direito à
felicidade, é igualmente apontada como estando na raiz do sofrimento.
No
terceiro princípio do Sermão de Benares, o Buda diz‑nos que é
possível, aqui e agora, anular essa ânsia, esse desejo envolto em frustração.
Esta cessação (Nirodha) e libertação da ânsia desiderativa é designada
como Nirvana. A palavra significa, à letra, «extinção» ou «expiração»,
sendo um termo apropriado para designar a simples acção de extinção da luz de
uma vela. Mais do que vermos nesta «extinção» um símbolo negativo, um sinal de
pessimismo, o Nirvana traduz o estado incondicionado que resulta da cessação de
toda a ânsia, de toda a nossa sede de permanência[32].
Infelizmente Shakyamuni nunca foi muito específico em caracterizar
positivamente o Nirvana. Quando lhe perguntavam o que era, ele gostava de
comparar essa atitude questionante àquela que resultaria se alguém ferido com
uma seta envenenada, em vez de procurar arrancá‑la imediatamente se
interessasse em saber qual o nome do archeiro e quando é que ele a atirou[33].
Provavelmente a visão niilista que temos habitualmente do Nirvana deriva da
interpretação e do uso que Freud fez desta noção. Na
sua obra Para Além do Princípio de Prazer, sob a influência de
Schopenhauer, utiliza, em sentido técnico, a noção de «princípio de nirvana»[34].
Com este conceito, Freud procurava caracterizar uma das duas tendências globais
da actividade da vida pulsional marcada pela busca de redução e anulação de
todos os factores de excitação psíquica. Mas o desenvolvimento da obra mostra‑nos
que não se trata apenas de uma «lei de
constância», de uma busca homoestática de equilíbrios, mas, sim, de ver o
«princípio de nirvana» como a própria expressão da «pulsão de morte». Nesta obra, Freud parece indicar que uma das duas
raízes mais funda de todo o psiquismo, do inconsciente e da vida pulsional,
senão mesmo da própria vida, se encontraria neste desejo de morte, um desejo de
se auto‑aniquilar e de fazer extinguir todo o estado de desequilíbrio que
cada ser vivo, em si mesmo, representa. Ora, como vimos, a forma como Freud
caracteriza o «princípio de nirvana» fá‑lo‑ia inscrever numa das
raízes essenciais do sofrimento, a saber, a "sede de inexistência" e,
como tal, seria, para o Buda, um princípio que se situaria nos antípodas do
Nirvana.
Ora,
mais do que representar o simples aniquilamento, o Nirvana é entendido pelos
budistas como passagem a um outro estado, a
um outro nível de existência mais puro e mais perfeito em que se abole os
«fogos da ignorância, da inveja e da violência». Que estado é esse? Talvez
possamos estabelecer um paralelismo com um dos sentidos etimológicos da palavra
«nirvana», a saber, «expiração». A nossa atitude habitual em face da vida é
procurar sustê‑la, retê‑la, não deixá‑la ser. Se
sustivéssemos a respiração para sempre, a vida aniquilar‑se‑ia.
Ascender ao estado de Nirvana consiste em deixar a respiração - sempre
identificada no pensamento oriental com a vida - fluir. Deixar a vida fluir sem
querer retê‑la neste ou naquele momento, neste ou naquele acontecimento
por mais central que nos pareça.
O
quarto princípio consiste na indicação do caminho necessário para se poder
atingir esse estado de espírito, designado como Nirvana. Este caminho é
habitualmente conhecido na gíria budista como o «óctuplo caminho». Mais do que
analisar caminho por caminho (visão, resolução, linguagem, acção, vivência,
esforço, recolhimento e concentração), importa referir duas ideias: a primeira
é a noção de perfeição que se identifica com a «Via do Meio» e que tem um
paralelismo notável com a noção aristotélica de virtude como justo
meio. Como vimos, e nos é dito logo no começo do Sermão de Benares,
o Buda busca uma via do meio que transcenda tanto a vida luxuriante, mas falsa,
da sua primeira existência, como o caminho da ascese dolorosa da segunda fase.
A segunda ideia é que apesar de Shakyamuni nos apresentar analiticamente oito
caminhos, o que está em questão neles são essencialmente três dimensões da
nossa existência: o conhecimento sapiencial (Prajna/Panna), a acção
moral (Shila/Sila) e a concentração do sentir (Samadhi). Trata‑se,
assim, de atingir graus de perfeição a nível da sabedoria, da acção e da
meditação. O que significa uma aposta total e integrada nas três capacidades
essenciais do ser humano: o conhecer, o agir e o sentir. Desenvolver com
perfeição o nosso conhecimento do
mundo, agir tendo sempre em conta o
carácter efémero da existência de todos os seres sencientes e sentir sem apego o nosso corpo, os
outros e o mundo, tal é o ideal do Budismo. Em qualquer destes campos, a
lassitude como a austeridade correspondem a atitudes extremas que só levam à
"insatisfação difusa".
Que
visão do mundo podemos surpreender no Sermão de Benares? A nosso ver, a
forma mais feliz de a caracterizar foi enunciada por um mestre budista japonês
do século XIII, Eihei Dogen Zenji (1200‑1253) que nos dizia numa célebre
sentença: "Conhecer a via do Buda é conhecer‑se a si próprio.
Conhecer‑se a si próprio é esquecer‑se de si mesmo. Esquecer‑se
de si mesmo é ser iluminado pelas dez mil vias. Ser iluminado pelas dez mil
vias é libertar o seu corpo e a sua mente assim como os dos outros."[35]
[1] Este texto corresponde a uma reformulação ampliada
de um artigo que publiquei na revista Communio. Revista Internacional
Católica XVII
(2000) nº 2, pp. 266‑276
[2] Ainda hoje
são objecto de controvérsia os dados cronológicos sobre a época em que viveu o
Buda. Enquanto as escolas tradicionais do Budismo, em particular o Theravada,
apontam usualmente as datas de 623-543 bC, a grande maioria dos estudiosos
situa a vida do fundador do Budismo entre os anos de 563‑483 bC. Cf. H.W.Schummann, Der historische Buddha, Munique, Eugen
Diederichs Verlag, 1982.
[3] Já Marco
Polo (The Travels of Marco Polo, trad.ingl., Londres, The Folio Society,
1968, p.241), no seu percurso pelo Ceilão, o identifica como o "Sakyamuni
o Santo".
[4] As
características míticas da biografia de Siddharta Gautama são, por demais,
evidentes, de tal modo que Joseph Campbell formula o seu conceito de «monomito»
- arquétipo narrativo exemplar que funciona como paradigma de todas as
histórias míticas - tendo como ponto de referência a vida do Buda. Cf. Joseph Campbell, The Hero with
a Thousand Faces, Londres,
Fontana Press, 1993 [Princeton University Press, 1949], pp.30 e sgs.
[5] Vinaya‑pitaka
[O Cesto da Disciplina] (Mahishasaka, ed.Issaikyo) nº1.421, 101b, citado
na excelente antologia de textos organizada por André Bareau, En Suivant
Bouddha, Paris, Lebeaud, 1985 [Buda, trad.port., Lisboa,
Presença,19752, p.77].
[6] A.
Bareau, Buda, trad.port., Lisboa, Presença,19752, p.79.
[7] Vinaya‑Pitaka (Mahavagga) 1,1,1.
[8] Texto citado por Narada Maha Thera (The Buddha and his Teachings,
Colombo [Sri Lanka], Vajiramana, 1973, p.62) e por Mark Epstein (Thoughts
without a Thinker. Psychotherapy from a Buddhist Perspective, Londres, Duckworth,
1996, p.43).
[9] Arya‑satya (sânscrito); em Páli, ariya-satta
[10] Tathagata é um dos títulos tradicionais
do Buda Shakyamuni e significa literalmente "aquele que se tornou
um", isto é, aquele que atingiu a plena realização de si.
[11] Nirvana,
em Páli, Nibbana.
[12] Duhkha,
em Páli, dukkha.
[13] São os
cinco factores de apego (Upadana‑skhanda) que constituem, pela sua agregação, a
personalidade individual sempre precária e sem natureza própria: 1. A
"forma material" (rupa)
corporal; 2. A sensação (vedana) que nos leva a classificar uma
experiência como agradável, desagradável ou neutra; 3. A percepção (samjna,
em Páli sanna) que permite
identificar e reconhecer algo como tal; 4. As actividades mentais (samskara, em Páli, sankhara) que traduzem estados psicológicos de alegria, de ódio, de
atenção, de vontade, entre outros; 5. A consciência (vijnana, em Páli vinnana)
enquanto apercepção sensorial e mental do mundo.
[14] Trishna,
em Páli, tanha.
[15] Vinaya‑Pitaka [iv, 17‑23]; Samyutta Nikaya (The Book of the Kindred
Sayings, Pali Text Soceity Translation Series, Londres, Luzac & Company
Ltd, 1954) 56.II.5‑8; Bareau, Buda, trad.port., Lisboa,
Presença,19752, p.86‑87.
[16] Samyutta
Nikaya (22.60.6)
[17] É esta a
tradução proposta - "pervasive unsatisfactoriness" - por Mark Epstein
(Thoughts without a Thinker, p.46) como sendo a mais rigorosa para
englobar os diferentes cambiantes presentes no termo que o Buda utiliza no Sermão
de Benares (dukhka).
[18] A
expressão é utilizada pelo biólogo Jacques Testart num contexto diferente, a
propósito da eugenia positiva, mas traduz bem a impossibilidade do desejo se
contentar com a sua própria satisfação imediata: "[...] la spirale du
désir ne s'arrêtera certainement pas là." (Le Temps de la responsabilité, ed. Frédéric Lenoir, Paris, Fayard,
1991, p.71).
[19] "The Buddha sees us all as Narcissus, gazing at and captivated by
our own reflections, languishing in our attempted self‑sufficiency,
desperately struggling against all that that would remind us of our own
fleeting and relative natures. [...] Birth, old age, sickness, and death are
distasteful not just because they are painful but also because they are
humiliating." (Mark Epstein, Thoughts without a Thinker, p.48).
[20] Kullavagga.
[21] Anitya,
em Páli, Annica.
[22] Anatman,
em Páli, Anatta.
[23] Numa
linguagem mais técnica falar‑se‑ia nas "três marcas de tudo o
que existe" (Trilakshana, em Páli, Tilakkhanda).
[24] Dhamapada 49 (Les Fleurs
de Bouddha. Anthologie du bouddhisme, Paris, Albin Michel, 1991, p.64)
[25] A
tese da inexistência do ego deve ser entendida, a nosso ver, como o
reconhecimento do absurdo de transformar a experiência que nos percorre numa
dimensão que nos pertence e que podemos possuir. Sugeriria, assim, a tese
segundo a qual o Buda visaria, com a sua noção de anatman, denunciar o sentimento
de posse como uma ilusão geradora de sofrimento: “Então, na verdade,
o Buda dirigiu‑se assim aos seus cinco discípulos: «A forma do corpo, ó
monges, é desprovido de «eu». Se, com efeito, a forma do corpo fosse o «eu»,
não conduziria ao tormento e poder‑se‑ia dizer: «Que a forma do meu
corpo seja assim! Que a forma do meu corpo não seja assim!» As sensações são
desprovidas de «eu». Se, com efeito, as sensações fossem o «eu», elas não
conduziriam ao tormento e poder‑se‑ia dizer das sensações: «Que as
minhas sensações sejam assim! Que as minhas sensações não sejam assim!» Mas
porque, na verdade, ó monges, as sensações são desprovidas de «eu», elas
conduzem ao tormento e não se pode dizer das sensações: «Que as minhas
sensações não sejam assim!» As percepções são desprovidas de «eu». Se, com
efeito, as percepções fossem o «eu», elas não conduziriam ao tormento e poder‑se-ia
dizer das percepções: «Que as minhas percepções sejam assim! Que as minhas
percepções não sejam assim!». Os hábitos mentais são desprovidos de «eu». Se,
com efeito, os hábitos mentais fossem o «eu», eles não conduziriam ao tormento
e poder‑se-ia dizer dos hábitos mentais: «Que os meus hábitos mentais
sejam assim! Que os meus hábitos mentais não sejam assim!» A consciência é
desprovida de «eu». Se, com efeito, a consciência fosse o «eu», ela não
conduziria ao tormento e poder‑se-ia dizer da consciência: «Que a minha
consciência seja assim! Que a minha consciência não seja assim!». [...] Por
consequência, ó monges, tudo o que é forma, quer seja passada, futura ou
presente, interior ou exterior ao indivíduo, grosseira ou subtil, inferior ou
superior, longínqua ou próxima, toda a forma deve ser vista assim, segundo a
realidade, através da sabedoria correcta: “Isto não é meu. Isto não me pertence.
Isto não é o meu «eu»”. Toda a sensação, quer seja passada, futura ou presente,
interior ou exterior ao indivíduo, grosseira ou subtil, inferior ou superior,
longínqua ou próxima, toda a sensação deve ser vista assim, segundo a
realidade, através da sabedoria correcta: “Isto não é meu. Isto não me
pertence. Isto não é o meu «eu»”.… Toda a percepção, quer seja passada, futura
ou presente, interior ou exterior ao indivíduo, grosseira ou subtil, inferior
ou superior, longínqua ou próximo, toda a percepção deve ser vista assim,
segundo a realidade, através da sabedoria correcta: “Isto não é meu. Isto não
me pertence. Isto não é o meu «eu»”.… Todos os hábitos mentais, passados,
futuros ou presentes, interiores ou exteriores ao indivíduo, grosseiros ou
subtis, inferiores ou superiores, longínquos ou próximos, todos os hábitos
mentais devem ser vistos assim, segundo a realidade, através da sabedoria
correcta: “Isto não é meu. Isto não me pertence. Isto não é o meu «eu»”. Toda a
consciência, quer seja passada, futura ou presente, interior ou exterior ao
indivíduo, grosseira ou subtil, inferior ou superior, longínqua ou próxima,
toda a consciência deve ser vista assim, segundo a realidade, através da
sabedoria correcta: “Isto não é meu. Isto não me pertence. Isto não é o meu
«eu»” (Vinaya‑pitaka [iv, 24‑28];
citado por André Bareau, Buda, pp.107‑109).
[26] "Être sans ego est impossible! Il s'agit seulement
de laisser l'ego à sa place, de ne pas y être attaché. [...] L'expression
utilisée habituellement, «être sans ego», signifie en realité «ne pas être
attaché à l'ego» car sa realité est sans substance fixe. Ce qui reste
nécessaire, c'est la perception de l'ego dans le sens «je suis moi» et vous
êtes «vous». Être au‑delà de l'ego ne signifie pas être dans un état
fusionnel, de dissolution dasn le quel on ne fait plus la différence entre soi
et les autres, sinon on devient fou." (Roland Rech, Moine Zen en
Occident. Entretiens avec Romana et Bruno Solt, Paris, Albin Michel, 1994,
p.107).
[27] Segundo
o mestre chinês Nan Huai‑chin, o sentido do «despertar» do Buda deve ser
entendido como a realização em si de que toda a existência condicionada e
dependente é vazia em si própria. "Le Bouddha a
été éveillé au fait que la production dépendante est fondamentalement vide."
(Nan Huai‑chin, L'expérience de l'éveil, trad.franc., Paris,
Seuil, 1998, p.18).
[28] Karma,
em Páli, Kamma.
[29] Dhammapada 1 (Les Fleurs de Bouddha. Anthologie du
bouddhisme, p.56).
[30] Alexandra David‑Néel, Le Bouddhisme du Bouddha.
Ses doctrines, ses méthodes et ses dévelopements mahayanistes et tantriques au
Tibet, Paris, Editions du Rocher, 19892.
[31] O texto
citado foi recolhido da primeira edição (1977) da obra de Alexandra David‑Néel
nas edições Rocher, traduzido em português com o título: O Budismo do Buda,
São Paulo, Edições Ibrasa, 1985, pp.53‑54. Provavelmente, a melhor
descrição da noção de desejo visada pelo Buda encontra‑se referido numa
história citada tanto na epopeia hindu Mahabharata como em vários contos
Zen. Jean‑Claude Carrière, na sua magnífica recolha de contos
tradicionais, cita‑o sob a designação "O sabor do mel":
"Um homem avança sozinho por uma floresta cerrada e povoada de animais
ferozes. Um imensa rede envolvia a floresta, mas o homem não sabia, pois a rede
era invisível aos olhos humanos. Uma mulher de olhos vermelhos vigiava todas as
coisas que se dirigiam, a ritmos diferentes, para um fim inevitável. O homem
não podia eximir‑se a atravessar esta floresta. De repente, ao ouvir os
urros das feras, foi tomado pelo medo. Correu e caiu brutalmente num poço
negro. Por um prodígio, ficou agarrado a umas ervas, a raízes cravadas no
rebordo do buraco, pendurado pelas duas mãos. Sentia abaixo dele o sopro quente
de uma enorme serpente que abria as goelas no fundo do poço. Sentiu que ia cair
e engolfar‑se naquela goela horrenda. Acima dele, esmagando as árvores,
viu aproximar‑se um elefante gigantesco que levantou a pata para o
esmagar. Surgiram ratos brancos e pretos que se puseram a esgravatar as raízes
de que o homem estava suspenso. Abelhas perigosas vieram nesse momento esvoaçar
em redor do buraco, deixando cair gotas de mel. Então o homem largou uma das
suas mãos e estendeu o dedo, suavemente com precaução. Estendeu o dedo para
colher as gotas de mel." (Jean‑Claude Carrière,
Tertúlia de Mentirosos. Contos Filosóficos do Mundo Inteiro,
trad.port., Lisboa, Teorema, 2000, pp.83‑84).
[32] Sem a
crença num estado positivo de Nirvana dificilmente se poderia apresentar
o Budismo como uma doutrina da libertação, da mesma forma que não se
compreenderia a crítica ao apego em relação à existência condicionada.
"Existe um não‑nascido, não‑feito, não‑formado, não‑composto,
e se não existisse, não haveria evasão possível do que é nascido, feito,
formado e composto." (Itivuttaka II 6). Um dos aspectos mais
interessantes da especulação filosófica budista consiste na mostração de como
irrompe em nós a dependência condicionada (Pratitya‑samutpada,
em Páli, Patichcha‑samuppada).
[33] Les Fleurs de
Bouddha. Anthologie du bouddhisme, Paris, Albin
Michel, 1991, p.52.
[34] "das Nirwanaprinzip" (Freud, Jenseits, Standard Edition, Ed.
de J.Strachey, The Hogarth Press/Institute of Psycho-Analysis, Londres, XVIII
55).